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| Em Anapu (PA), uma aliança imoral |
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Eduardo Sales de Lima,
da Redação Do Partido dos Trabalhadores, ex-afilhado de Dorothy Stang une-se a envolvido com morte da missionária A missionária estadunidense Dorothy Stang foi assassinada há três anos e oito meses a mando de um grupo de fazendeiros em Anapu (PA). Nas eleições municipais de outubro, foram seus projetos que sofreram um outro golpe na cidade. Francisco de Assis Sousa, o Chiquinho do PT, ex-afilhado político da freira, elegeu-se prefeito de Anapu, tendo como vice o fazendeiro Délio Fernandes (PRP), investigado como suspeito de ter sido um dos mandantes do assassinato de Dorothy. Délio não chegou a ser denunciado pelos promotores. No entanto, é suspeito de ter se aproveitado dos mesmos processos de grilagens que Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, e Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusados de serem os mandantes do crime. O último foi julgado pela segunda vez em maio e inocentado da acusação de mandante. Nas ruas e comunidades de Anapu, corre a informação de que Délio também concedeu assistência a Bida e o refugiou dentro de sua fazenda logo após o assassinato de Dorothy. Esse é um dos motivos da freira Jane Dwyer não ter votado em Chiquinho do PT. Ela trabalhava com a missionária e vive em Anapu há onze anos. Apesar do apreço que tem por Chiquinho do PT, que era praticamente um filho para sua amiga Stang, Jane não poderia votar em Délio, “se ele levou Bida daqui de avião”. A investigação sobre o vice-prefeito eleito da Anapu não conseguiu, entretanto, aprofundar os indícios mais evidentes. A apuração mal feita sobre o fato de ter refugiado Bida em sua fazenda é um dos maiores exemplos. Imperícia A estagnação das investigações sobre Délio e seu grupo, como conta José Batista Gonçalves Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da coordenação nacional da entidade, se deu porque elas se valeram apenas de documentos e testemunhas. “Hoje, um dos meios mais eficazes de se conseguir informações mais precisas sobre as relações de grupos que encomendam crimes, quando se trata de quadrilhas especializadas ou crimes que envolvem um grupo maior de pessoas, são as escutas telefônicas e as quebras de sigilos bancários”, afirma José Batista. Segundo o advogado, a utilização de tais aparatos tecnológicos que facilitam o processo de apuração “praticamente inexistiu no processo investigativo do assassinato de Irmã Dorothy”. A missionária denunciou Délio em vários momentos por desmatamento ilegal e grilagem de terras públicas no oeste do Pará. Segundo José Batista, ainda existem processos tramitando na Justiça Federal originados das denúncias da missionária. Na CPI da Grilagem da Terra no Congresso, Dorothy apontou Délio como um dos principais organizadores da invasão de áreas da União e de queimadas. Cabrito e onça Fernandes e Chiquinho do PT têm trajetórias muito diferentes. O último foi educado desde a adolescência pela missionária. Seu nome civil é Francisco de Assis dos Santos. Ele atuou como presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu e foi o principal auxiliar da religiosa no combate aos ruralistas, entre eles Délio. Em 2003, quando exercia o cargo de vice-prefeito da cidade, Chiquinho assinou junto com Dorothy e outras entidades um documento em que o fazendeiro é acusado de grilar as terras onde a religiosa organizava a implantação do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS). No mesmo documento, Délio é denunciado porque teria desviado recursos da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). O prefeito eleito de Anapu, hoje em dia, defende Délio. Disse publicamente que, embora seu vice tenha sido apontado como suspeito no assassinato de Dorothy, nada ficou provado. Chiquinho possui um patrimônio contabilizado em R$ 127 mil. A declaração de bens do vice-prefeito eleito ultrapassa os R$ 10 milhões. Sobre a aliança, a Irmã Jane cita uma frase que vem sendo bastante propagada na cidade: “A gente diz, nunca se viu uma onça deitar com o cabrito e o cabrito amanhecer”. José Batista acredita que essa aliança do candidato do PT com Délio faz parte de um processo que o PT atravessa nos últimos anos. “[O partido] abriu mão de um projeto de sociedade e decidiu chegar ao poder a qualquer custo. É natural que, para a estratégia do partido, também esteja no mesmo palanque o [deputado federal] Jader Barbalho e [a governadora paraense] Ana Júlia”, comenta, sobre outras alianças “funcionais” do partido. Tanto Chiquinho quanto Délio respondem a processo por compra de voto. Piorou Para Jane, a pressão sobre o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) criado pela antiga amiga vai aumentar; assim como a pressão sobre os pequenos agricultores de outros lotes que vivem nas comunidades no entorno da cidade. Isso porque não só em Anapu, mas em toda a região atravessada pela rodovia transamazônica, houve um predomínio de prefeitos eleitos aliados a grandes fazendeiros. “Os grileiros e os madeireiros botaram gente para disputar e venceram nessa região. Aqui é mais simbólico, porque Chiquinho era quase um filho da Dorothy. Por isso, os próximos quatro anos serão de guerra”, elucida Jane. Luta pela terra A título de exemplo, a luta do povo contra o poder local já ocorre entre o mesmo Délio e a população de Anapu. Segundo José Batista, da CPT, a área de terra que ele reivindica está dentro da Gleba Bacajá, matriculada em nome da União. Trata-se da mesma gleba onde Bida e Taradão também reclamam por lotes. “É uma Gleba reconhecidamente da União e que, inclusive um ano e meio antes de Irmã Dorothy ter sido assassinada, o juiz federal de Marabá, Herculano Nassif, chegou a conceder liminar de antecipação de tutela em pelo menos dez processos devolvendo essas terras definitivamente para o patrimônio da União [Incra]”, lembra o coordenador da CPT. Fato é que, posteriormente, essas liminares foram cassadas pelo juiz sucessor, Francisco Gasset Júnior, e, novamente, “voltaram ao controle desses fazendeiros, impedida a emissão do Incra na posse”, conta Batista. Irmã Jane aponta que, desde as últimas eleições municipais, a questão agrária na região tem piorado para o povo. A freira se alegra, ao menos, ao notar a tentativa dos agricultores de Anapu de se organizarem e resistir ao que está acontecendo e que pode vir a ocorrer. “Tivemos uma audiência pública com o Incra no último sábado [8], com a presença de 700 pessoas, de todas as comunidades do município, preocupadas com a situação. O povo não vai se submeter a isso”, revela. Fonte: www.brasildefato.com.br , 13/11/2008 |
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