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Poder. Em proveito da minoria PDF Imprimir E-mail

Lúcio Flávio Pinto *

A bipolaridade do poder tem sido uma característica da história do Pará. Mas nunca chegou a um nível como na atual disputa entre os Maiorana e os Barbalho. Ao invés de servir à causa pública, os poderosos se fartam em banquetes privados. A sociedade não consegue evitar essa pilhagem.

O Pará tem sido vítima da bipolaridade do poder. O grupo que vence não consegue conviver com os derrotados: trata logo de marginalizá-los e se empenha em destruí-los de vez. O grupo derrotado não consegue exercer a oposição positiva ou construtiva: dedica-se a conspirar e manobrar para apear o rival da posição de mando que ocupou. O funcionamento desse pêndulo tem efeitos devastadores.

Antônio Lemos, por exemplo, até hoje considerado o maior prefeito que Belém já teve, foi derrubado por um golpe violento, que destruiu seu patrimônio e quase acaba com a sua vida. O velho intendente sobreviveu às humilhações e agressões, mas não resistiu por mais do que um ano, morrendo no amargo exílio do Rio de Janeiro, em 1913. Na véspera, era uma espécie de marajá da cidade enriquecida pela exploração monopolista da borracha que a Amazônia então exercia. Todos lhe davam presentes (nem todos desinteressadamente) e lhe beijavam as mãos, embora muitos mal sufocando o impulso de mordê-la, como acabariam fazendo.

Lemos é um mito, fortalecido pela sucessão de alcaides medíocres que Belém teve desde então, inclusive o que presentemente nos (des)governa. Qualquer um teria feito seu nome com tanto dinheiro em caixa, engravidada de recursos por empréstimos doidivanas contraídos no exterior, como se a opulência da seringueira fosse ser eterna. A fortuna do intendente também não escondia traços de enriquecimento ilícito.

É provável que se tornasse alvo de investidas do Ministério Público sobre concessões suspeitas do serviço público, que fazia a amigos e aliados, não de forma altruística, se governasse nos dias presentes. Mas teve a intuição da grandeza e da perspectiva mais larga, tanto nos negócios públicos quanto particulares. O traçado dos novos bairros e o jornal A Província do Pará são apenas dois dos muitos exemplos das duas dimensões. Nossos "neo-intendentes" a partir dele são provincianos ou medíocres, além de rasteiramente interesseiros, em regra, que admite as exceções de praxe. Mas raras.

O grande Lauro Sodré se apequenou ao se comportar com falso distanciamento diante da farsa que propiciou a expulsão do seu maior inimigo e a sua volta ao epicentro do poder, depois de 14 anos de domínio "lemista". Foi uma pálida imagem do republicano futurista que se projetou nacionalmente no final do século XIX. Deve ter tido suas angústias hamletianas, mas em circuito íntimo, como alguns dos déspotas que se seguiram na política plebiscitária. Ela é praticada, no Pará, com monotonia enervante, empobrecedora, feita de vassalagem e traição, oportunismo e malícia, sofreguidão e intemperança. Raramente com lucidez e no sentido do verdadeiro interesse público.

O exercício radical do poder muda personalidades em pouco tempo. O tenente revolucionário Magalhães Barata de 1930 se tornou o soba do PSD, a coonestar verdadeiras quadrilhas. Elas lhe tapavam os olhos com o elogio subserviente e assaltavam os cofres públicos, enquanto Barata exibia com orgulho seu limpo currículo. A vaidade cega os líderes e é um confete que seus liderados jogam sobre os seus olhos para imobilizar até mesmo os políticos mais bem preparados, impedindo que sua eventual lucidez se traduza em benefício para o Estado. Ou então superdimensionando divergências, que podiam ser atenuadas ou compostas se por trás dos movimentos pendulares de subida e descida não houvesse o combustível poderoso do desvio de recursos públicos, do nepotismo, do fisiologismo e do compadrio. São essas as traças que roem as muitas riquezas do Pará, renovando a contradição brutal que o mantém pobre com tantos recursos naturais disponíveis, mas progressivamente dilapidados.

Depois de mais de três décadas de combates sangrentos entre "baratistas" e "anti-baratistas", surgiram dois líderes fomentados pelo movimento militar de 1964. O coronel Jarbas Passarinho e o tenente-coronel Alacid Nunes deviam sepultar de vez o "baratismo", com suas seqüelas predatórias multiplicadas a partir da ausência do líder, que de certa forma as inibia ou controlava. Ao invés disso, "repaginaram" o caudilhismo, como hoje se diz, com os inconvenientes - e as vantagens, para eles - proporcionadas por um exercício mais longo e intenso do poder.

O Pará se dividiu entre o "jarbismo" de acento federal e o "alacidismo" de base municipal (não por acaso, a sede do poder de Alacid foi a Associação dos Municípios, entidade pública de domínio privado e personalíssimo), uma versão empobrecida do "laurismo" e do "lemismo" de meio século antes. Abrir a "terceira via" foi a grande façanha de Jader Barbalho, que se apresentou como novidade e autonomia, quando, na verdade, era apenas a antinomia dos coronéis, um coronel de barranco e periferia, uma versão depravada de Robin Hood ao tucupi.

A distorção do modelo do líder populista, defensor dos pobres e oprimidos, sem vínculos com a feroz elite branca, se tornou tão evidente que fez do líder da oposição o símbolo - até nacional - do enriquecimento ilícito, do político que se vale do acesso ao caixa do tesouro público para formar riqueza pessoal. Jader talvez tenha se tornado o grande líder mais rejeitado do país. Seus inimigos, porém, não devem esquecer que ele sobreviveu a Jarbas e Alacid - e não sobreviveu por acaso.

Em Alacid aplicou o coup de grâce (se o tenente-coronel permite a boutade), seis meses depois de ter se tornado seu sucessor no governo do Estado, com sua decisiva ajuda, apresentando uma razão superior para se desvencilhar dos aliados "alacidistas": a suspeita de que votariam em Paulo Maluf e não em Tancredo Neves no colégio eleitoral que escolheria o primeiro presidente da república depois do ciclo dos generais. Se havia ou não esse risco, tornou-se matéria secundária.

A sagacidade dos políticos está em dar verossimilhança ao incerto ou improvável, transformando especulação em fato, a versão em verdade. Alacid nunca mais se recuperou. Viria a receber o golpe final de Vic Pires Franco, que lhe tirou o mandato - tido como certo na véspera - de deputado federal durante a madrugada. O que dá uma idéia da situação em que ficou o outrora manda-chuva do Estado.

O golpe de Jader contra Jarbas Passarinho foi ainda mais sutil e sofisticado, consumado no curso de sucessivas seduções. Depois de terem batido boca com toda aspereza em 1982, Jader e Jader se juntaram como correligionários fidelíssimos por uma iniciativa mortal (politicamente falando) de Jader: mandou o ex-inimigo ficar à beira do leito da esposa que morria enquanto ele próprio cuidava de sua eleição, o que fez com aplicação exemplar. Jader não duvidava do amor de Jarbas por Ruth. Sabia que aquela hipoteca jamais poderia ser resgatada.

Ela pesava tanto que Jarbas arrastou os pés na envergonhada campanha para o governo em 1994. Sua abulia ajudou - tanto quanto o vitorioso Plano Real, de Fernando Henrique Cardoso - a eleger o adversário, o insondável Almir Gabriel, o líder político mais refratário a povo (e ao olhar nos olhos) da VI República no Pará. Com o escudo da personalidade ilibada de Passarinho, Jader se protegeu da má-fama e se elegeu senador, enquanto o aliado abria a própria cova, que agora está em Brasília e é dourada, mas, ainda assim, ele não era o que queria para si. Aceitou-a resignado. Afinal, ficou em xeque-mate.

O mistério que resta na medíocre representação política do Pará, burocrática e inócua, incapaz de formular alguma coisa de válido sobre o drama do Estado, é: por quanto tempo ainda continuará a freqüentar o poder e aonde ainda chegará Jader Barbalho, carregando como carrega o peso da sua rejeição? O contraste com a posição que ostentam líderes contemporâneos de alguma forma assemelhados, como Íris Resende e José Richa, dá uma idéia comparativa da má-fama do ex-governador. Em compensação, sua permanência revela seu poder de recuperação e de manobra, quando se pensa na condição do político que mais afinidade teve com ele, o paulista Orestes Quércia (versão redecorada do lema de Ademar de Barros: "rouba, mas faz"), definitivamente confinado aos bastidores.

A articulação boca-a-boca, olho-no-olho, e a montagem de esquemas visando um fim antecipadamente estabelecido, constituem a mais eficiente arma de Jader Barbalho. Ele estocou elementos desse capital até poder reaparecer em público, superando o trauma da exibição algemado e conduzido preso pela Polícia Federal, depois de sair pela porta dos fundos do Senado, como nenhum outro presidente da casa antes dele, coberto de opróbrio.

Jader foi pessoalmente levar sua palavra - e algum presente - a metade dos 143 municípios paraenses e de metade deles saiu com a vitória eleitoral e o maior galardão para o PMDB negociar na eleição de 2010. Os óbolos que o presidente Lula colocou em suas mãos, reconhecido por sua assessoria política, é a borracha que está passando em sua biografia em locais marcados pela migração no interior de um Estado gigantesco, fragmentado por grandes projetos gravitacionais e enfraquecido pela ausência do poder público.

Com a possibilidade de boas alianças e a renovação dos acordos em curso, Jader Barbalho revitalizará seu pólo para enfrentar o pólo oposto, liderado pelo grupo Liberal? É esta a bipolaridade que exaure o Pará nas últimas duas décadas. Simples reprodução do passado? Não exatamente. Jader é o primeiro líder político, desde Antônio Lemos, que montou um grande negócio - no caso, um grupo de comunicação, bem mais poderoso do que o do intendente, restrito a um jornal (tão moderno e atualizado industrialmente como O Liberal e o Diário do Pará, porém com mais qualificação editorial). Provavelmente ele é o político mais rico da história do Pará republicano (Lopo de Castro pode ter chegado perto, mas herdou parte dos seus bens e os multiplicou ao casar com Conceição Lobato). O título é inquestionável se se considera do ponto a partir do qual Jader saiu quando se elegeu pela primeira vez, em 1966, como vereador.

É pouco provável que esse negócio tivesse crescido tanto se Jader não ostentasse o melhor currículo político dentre todos os líderes paraenses. Daí porque a razão do sucesso do negócio seja também seu ponto fraco: a suspeita (ou a comprovação) de favorecimento da máquina pública, através de fartos anúncios ou de permutas não declaradas (como papel de imprensa). O grupo Liberal explora com grande proveito essa fragilidade do concorrente: apresenta-se como uma empresa de mercado, que não está atada a engrenagens políticas, por isso merecendo a credibilidade que reivindica. Quanto mais Jader abusou da máquina pública, mais contribuiu para fortalecer a imagem da empresa dos Maiorana.

A bipolaridade estaria atenuada se a relação entre os contendores se mantivesse nesses parâmetros, mas o grupo RBA conseguiu certa profissionalização e se beneficiou das cisões e colisões entre os irmãos Maiorana. Resultado: o Diário do Pará desbancou O Liberal da liderança na mídia impressa e ainda avançou profundamente no mercado de anúncios classificados, ameaçando a posição do rival, dono desse setor até pouco tempo atrás.

Os erros e excessos praticados pelos Maiorana na condução do seu império os expôs a uma alta vulnerabilidade. Quem analisa as demonstrações financeiras de O Liberal fica sem saber como o jornal se mantém e faz investimentos (inclusive num oneroso equipamento gráfico) acumulando prejuízos há sete anos, com endividamento crescente, patrimônio líquido negativo e capital insignificante. Excluindo-se as hipóteses que não se pode demonstrar, restam duas explicações para o paradoxo.

Uma é o aporte da TV Liberal, o mais rentável dos negócios dos Maiorana. A televisão não só tem mais liquidez: é a principal fonte de poder do grupo por causa da sua afiliação à (ainda) poderosa Rede Globo. Imaginem-se os Maiorana sem essa vinculação: as dificuldades atuais seriam muito maiores. Mesmo assim, eles têm negligenciado os investimentos na sua televisão, sofrendo intervenção da Globo no jornalismo e sendo obrigados a reequipar a emissora, que se aproximava do ponto de crise profunda.

A outra explicação, derivada da imagem de maior credibilidade do grupo, quando confrontado com a contaminação explicitamente política dos rivais, e também por efeito gravitacional do poder da Rede Globo, é a capacidade da empresa de impor sua vontade aos anunciantes. Mesmo quando não têm razões mercadológicas para programar publicidade nos veículos das Organizações Romulo Maiorana, eles a cedem por razões que vão além da pura aritmética. E a pressão que sofrem é enorme. Dela já provaram, em alta dose, a Rede/Celpa, o Banco da Amazônia e a Companhia Vale do Rio Doce, que acabaram se curvando à vontade - e aos caprichos - dos Maiorana. São numerosos os exemplos de menor expressão. E são múltiplos e surpreendentes as expressões e os efeitos dessa mesma pressão.

O confronto - político, econômico e comercial - dos dois pólos de poder no Pará não encontra paralelo no passado. É tão extremado e sem limites que se exibiu sem disfarces na eleição deste ano. Os critérios jornalísticos foram deixados de lado e o respeito ao leitor ignorado - e, deva-se dizer, com maior desfaçatez pelo grupo que se apresenta como mais empresarial e de maior credibilidade, o Liberal. Ambos queriam ganhar de qualquer maneira, ou, pelo menos, derrotar o adversário o mais fragorosamente que pudessem. Foi um strip-tease moral e profissional como poucas vezes se viu, mas que tem sua inconveniência acentuada pelo grau de exigência do público, com acesso a informações manipuladas ou escondidas na mídia convencional graças à internet.

O resultado da eleição deste ano é mais um indicador do desejo da sociedade de se livrar dessa violenta bipolaridade de poder no Pará. O problema é que as tentativas de encontrar um novo líder político ou um empreendimento jornalístico mais adequado não têm dado certo. A frustração decorrente desse insucesso pode ser identificada como uma das causas da incapacidade de o Pará se identificar com a sua história ou de assumir a sua condução, como se mostrará nesta edição.

O domínio da esfera pública pelo interesse privado sufoca a identificação das causas que serviriam à sociedade e mantém o Pará num caminho paralelo ao do progresso. Suas múltiplas e importantes riquezas continuam a ser saqueadas ou a servir ao enriquecimento dos integrantes e aproveitadores dos dois grupos que dividem e disputam o poder, monopolizando-o.

* Jornalista

Fonte: www.adital.com.br

 
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